Por Ivo Dantas, da Revista Algomais
Membro titular da Comissão de Minas e Energia e Ciência e Tecnologia do Congresso Nacional, o deputado federal Fernando Ferro critica a utilização de técnicas ultrapassadas nas usinas de Pernambuco e defende modificações na gestão das colheitas, com a inclusão de práticas de sustentabilidade. “Somente assim poderemos ser competitivos”, diz.
Hoje, você confere as opiniões do deputado acerca da pôlemica do etanol, da crise da indústria sucroalcooleira pernambucana e as perspectivas para o setor durante os próximos anos.
Na segunda parte, que será publicada nesta quarta-feira (09), veja as análises sobre o setor hidroelétrico e nuclear brasileiros, além das mudanças na Reforma Tributária, em tramitação no Congresso Nacional.
ALGOMAIS – Toda a polêmica gerada por declarações de representantes da ONU acerca do crescimento da produção de etanol e da falta de alimentos se aplica ao Brasil?
Dep. Fernando Ferro – É fato que essa tendência de substituir terras para produção de combustível é prejudicial à oferta de áreas para plantar alimentos em países como os Estados Unidos, que utilizam o milho como matéria-prima, mas a própria ONU já retificou que isso não se aplica ao Brasil. Seja pela nossa experiência já consagrada na fabricação do etanol através da cana-de-açúcar ou até pela porcentagem de terras utilizadas para esse fim, que atualmente atinge apenas 3% da área agricultável do país. Em um curto e médio prazo, não acredito que tenhamos esse problema. Creio até que podemos ocupar 10% desses espaços para produção de etanol sem prejudicar o plantil de alimentos.
ALGOMAIS – Como está Pernambuco nesse cenário?
Dep. Fernando Ferro – É preciso observar que o setor sucroalcooleiro do nosso estado passou recentemente por uma crise, perdendo inclusive espaço para o sudeste e centro-oeste, e agora está começando a se reerguer. Muitas das áreas degradas pelo cultivo da cana em Pernambuco poderiam ser reativadas. Com o crescimento da demanda por etanol, acredito que podemos reencontrar o rumo da nossa indústria na Zona da Mata.
ALGOMAIS – E quanto à produtividade?
Dep. Fernando Ferro – Por termos um terreno muito acidentado e técnicas de cultivo que demandam a queimada da cana-de-açúcar, temos uma produção menor do que de outras regiões do país em que a topografia favorece a utilização da colheita mecanizada, que aumenta a produtividade e minimiza os danos ambientais. Com a queima realizada nas plantações pernambucanas, se perdem expressivos 20% do álcool e açúcar que poderiam ser fabricados.
ALGOMAIS – O Canal do Sertão mudará alguma coisa?
Dep. Fernando Ferro – Deve ser uma boa saída para a expansão do setor, com o desenvolvimento de plantações irrigadas no semi-árido, ampliando a nossa área de cultivo e favorecendo ao crescimento da produção.
ALGOMAIS – Esse crescimento pode ser sustentável?
Dep. Fernando Ferro - A questão da cana já trouxe em si um problema ambiental muito sério: o desmatamento da mata atlântica. Sem contar com práticas atrasadas de colheita, como a queimada. Não adianta reduzir a emissão de CO² através da utilização do etanol nos veículos se a produção libera tantos poluentes. Na questão social, os problemas ainda persistem. Regiões com trabalho escravo, como visto em denúncias recentes na Mata Sul de Pernambuco, além de trabalho infantil.
ALGOMAIS – Como isso afeta a competitividade?
Dep. Fernando Ferro - Essa é uma das justificativas mais utilizadas para barrar o etanol produzido no Brasil. Na Europa, procura-se sempre desqualificar o nosso combustível – mais barato e de maior qualidade – por não termos esse cuidado sócio-ambiental, que já é exigido por grande parte dos consumidores mundiais. Já existe um movimento de acordar, principalmente por pressão do Ministério Público, mas ainda existe uma mentalidade atrasada quanto a essas questões. Precisamos mudar esse cenário se quisermos ser competitivos no mercado global.
# Confira amanhã a segunda parte da entrevista.